quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

SOLILÓQUIO À MINHA MÃE - 1982 - Nazareno Lima e Chico Mendes




SOLILÓQUIO À MINHA MÃE - 1982

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                         Nazareno Lima e Chico Mendes               

                         - I -

Vejo hoje, sob medidas ameaçadoras
Esta, que a tantos como eu, criou.
Com isto, dentro do meu ego ficou
O martírio das espécies sofredoras!

Cada tombo individual que acontece,
Parece do meu corpo, um pedaço tirar:
É mais uma batalha em que devo lutar,
Enquanto aos poucos minha Mãe fenece!

A tua morte ó Mãe minha, dá a vida
A estes que, pelo dinheiro, lhe abate:
Cobrem nós com um manto escarlate
E a caminhada pelo mundo é perdida!

Os irmãos que ajudam a exterminar-lhe,
É pela necessidade tão poderosa...
Os exóticos, de ideia impiedosa:
Ordenam como brutalmente explorar-lhe!

Sua dimensão que é ainda pomposa,
Ocultando a criação da desídia,
Perseguida pela horda da perfídia
Que julga-se entre nós, vitoriosa!

A DONA DA RUA - 2009 - Nazareno Lima


SENHORA – 13/12/2009

(de Orestes Santos e Lourival Faissal)

                               Para a Dona da Rua


Senhora!
Te chamam Senhora!
Todos te respeitam,
Sem saber quem tu és!

Senhora!
Parece senhora,
Mas tu tens a alma
Cheia de pecados:
Falsa como és!

Senhora!
És uma senhora,
Mas és mais perdida
Que as que precisam
Perdidas viver...

Senhora!
Tu manchaste o nome,
O nome de um homem
Que um dia em teus braços,
Feliz pertenceu...

Senhora!
Com todo o teu ouro...
De ti sinto pena:
Tu não tens na vida
Nem Deus, nem moral!
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A BOCA DO VARADOURO - 2008 - Nazareno Lima


   TRIBUTO  A  2001 - 01/01/2001

                                                            Nazareno Lima

Os anos passam ... Chega a velhice:
A esquisitice que assusta a vida!
Meta cumprida, algo que é tolice,
Pois ninguém disse que a luta é vencida!

Os tempos passam ... Vem a despedida ...
A causa perdida torna-se mesmice,
A velha meiguice fica esquecida
E a compadecida é a esquizofrenice!

Ai do presente desorganizado ...
Ai do passado desestruturado ...
Ai do futuro que é saudades ...

A vida é assim ... Tal uma viagem:
Quem não planta, fica sem passagem,
À alimentar suas mediocridades!
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A BOCA DO VARADOURO - 2008 - Nazareno Lima



     A   N O I T E  -  31/05/2000

                          Nazareno Lima


                  - I -                              

A  noite é linda... agradabilíssima:
Feita para os que precisam de calma,
É a energia positiva para a alma
E rica para a pessoa esquisitíssima!

Nessa vida esquizofrenicíssima,
Se não fosse a noite seria um trauma
Sem reflexão, sem impulsão, sem palma,
A arte seria inconsequentíssima!

E vou crescendo com a noite alta,
Citando a ideia que se exalta,
Na minha cabeça convulsionadora ...

E ai exponho os sonhos meus:
Pela existência, agradeço a Deus,
Cantando a vitória revolucionadora

A DONA DA RUA - 2009 - Nazareno Lima




           - II -
E assim brilhava a Dona da Rua,
Nos ônibus... Nas praças e no Mercado...
Prosseguindo com o seu trabalho errado,
Dificultando à cada vez a vida sua!

O ruído de tua voz um tanto rouca...
Mil ouvidos sentem falta de ouvir!
Preparando uma roupa de dormir,
Muitas bocas ainda lembram tua boca!

Hoje as ruas desertas de seu vulto...
Dá saudades o som da tua voz...
Um olhar te procura tão veloz
E sem achar, tua falta causa insulto!
 

A BOCA DO VARADOURO - 2008 - Nazareno Lima




      V A Z I O S  -  23/04/2000

                                 Nazareno Lima
Estes vazios que me desconcertam,
Neste ambiente de desigualdades,
São tais pobrezas e incapacidades,
Que dia-a-dia mais e mais se acertam!

Estes vazios que tanto me apertam,
E me privaram das felicidades,
São tais as fomes nas grandes cidades,
Que diminuem, mas não se consertam!

Estes vazios que me esvaziaram,
Lutaram muito porém, não secaram
A minha fonte de sabedoria...

Igual Van Gogh pintou pra o futuro:
Escrevo hoje este verso obscuro,
Para estes vagos se encherem um dia!
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ECOS AMAZÔNICOS - 1992 - Nazareno Lima



O pio da inhambu-azul de madrugada,
O urro de um capelão desvairado
E o grito de um janaú revoltado
Diziam que tua vez era chegada.

Um pica-pau à procura de comida
Reproduzia uma voz assustadora:
Parecia o som duma metralhadora
Disparando contra a tua pobre vida!

Chamando chuvas, o pio da saracura...
Sobre um lago, piavam três marrecas
E o canto do uirapuru nas várzeas secas
Enunciavam tua morte prematura!!!

Enquanto à noite um ‘canoeiro’ cantava...
Eu defumava sobre o ronco da fornalha
E triste cantava uma rasga- mortalha
Avisando que teu fim se aproximava !

O barulho dos morcegos voadores,
O canto coletivos dos ratões
E o canto cansativos dos corujões
Premonizavam os teus exterminadores !

Ainda à noite, gritava a ‘mãe- da- lua’
Junto ao misterioso ‘canuaru’ !
Pensando no amanhã gritava um uru,
Prevendo realmente a morte tua !

A poronga era soprada pelo vento...
As mariposas querendo apagá-la
E o macaco-da-noite não se cala
Predizendo tudo isto e eu desatento!

O cantar do bacurau no amanhecer,
O desajeitado vôo do caburé
E num lago esturrando um jacaré
Profetizavam o final do teu viver!