quarta-feira, 8 de junho de 2016
POESIAS ACREANAS - Juvenal Antunes - 1922
À LAURA! - I
Laura! Não digas mais que és desgraçada,
Porque, se és desgraçada a culpa é minha!
És tão pura como a madrugada,
Tão inocente como uma andorinha!
Hoje, se por alguém és reprovada,
Se alguma criatura te amesquinha,
Continua serena em tua estrada,
E ninguém neste mundo te amesquinha!
Como arrojado cavaleiro andante,
Percorrerei até todo o universo,
Montado num moderno rocinante!
E a quem não te adorar nem fizer verso
Darei rápida morte fulminante,
Se houver alguém na terra tão perverso!
JUVENAL ANTUNES - Acre - 1922
POESIAS ACREANAS - Juvenal Antunes - 1929
SONETO
Cumpro a promessa que lhe fiz... Vencendo
A indolência fatal que me consome,
Vou estes feios versos escrevendo,
Assim com cara de quem está com fome...
Porque não deixo, aqui, só o meu nome?
Nesta segunda quadra me metendo,
Antes que tinta novamente tome,
Com o diabo da preguiça estou me vendo!
Eis-me, enfim, no começo dos tercetos...
Se eu, um dia, encontrar esse malvado
Que inventou essa droga de sonetos,
Que D. Branca me consagre burro
Se eu não assassinar esse danado
Com uma facada, um ponta-pé, um murro!
JUVENAL ANTUNES - Acre, 1929
POESIAS ACREANAS - Juvenal Antunes 1917
AOS 32 ANOS
Entre as do mundo fúteis criaturas,
Já vivi muito mais de onze mil dias;
E, contando alegrias e amarguras,
Tive mais amarguras, que alegrias.
Engolfei em cismares e poesias,
Cantei, como poeta, as coisas puras,
Sem saber, coração, que recolhias
Desilusões passadas e futuras.
Hoje, cético estou. Bem tarde embora,
Vejo só ter razão quem geme e chora,
E quanta ideia vã nos enfeitiça...
De orgulhos e vaidades me desprendo;
E, como um simples verme, vou vivendo
Na calma, na indolência, na preguiça!
Juvenal Antunes - 1917
Entre as do mundo fúteis criaturas,
Já vivi muito mais de onze mil dias;
E, contando alegrias e amarguras,
Tive mais amarguras, que alegrias.
Engolfei em cismares e poesias,
Cantei, como poeta, as coisas puras,
Sem saber, coração, que recolhias
Desilusões passadas e futuras.
Hoje, cético estou. Bem tarde embora,
Vejo só ter razão quem geme e chora,
E quanta ideia vã nos enfeitiça...
De orgulhos e vaidades me desprendo;
E, como um simples verme, vou vivendo
Na calma, na indolência, na preguiça!
Juvenal Antunes - 1917
terça-feira, 7 de junho de 2016
POESIAS ACREANAS - Juvenal Antunes - 1922
LÓGICA
Se amar é ser escravo e não altivo,
Alienar a vontade e o movimento,
Ter em céus e infernos, como vivo;
Se amar é bem mal tão exaustivo,
Que embora, fecha, cega o entendimento,
Se amar é padecer tal sofrimento,
Sem um remédio, sem um lenitivo,
Se amar é ver fugirem calma e sono,
Não saber explicar o que a alma sente,
Ambicionar aquilo que ambiciono,
Ter sempre alguém no coração presente,
Sentindo solidão, vácuo, abandono,
Então já sei que te amo ardentemente!
Juvenal Antunes - 1922
POESIAS ACREANAS - Juvenal Antunes - 1922
VULCÃO
Quem te conhece assim, simples, modesta,
De olhos baixos, discreta e recolhida,
Com esse Cândido porte, que te empresta
Um ar de melancolia compungida,
E ouve-te a voz tão sussurrante e mesta,
Como uma doce nota sustenida,
Fica a pensar que alguma dor te infesta,
Que alguma mágoa te consome a vida.
Toda a gente, entretanto, anda enganada;
És, entre as mil mulheres que eu conheço,
A mais ardente, a mais apaixonada...
Semelhas o vulcão, perfeitamente:
Por fora - pedra, argila, areia, gesso;
Por dentro - fogo, lava incandescente!
Juvenal Antunes - 1922
segunda-feira, 6 de junho de 2016
POESIAS ACREANAS - Dr. Juvenal Antunes - 1922
CONTRVÉRSIA
Sim! O primeiro amor, dizia Alfredo
É cego, é louco, é virginal e casto
Chega-nos muito tarde, ou muito cedo,
E enche, sozinho, o coração mais vasto.
Povoa-nos o peito insonte ou gasto,
Entra-nos a alma docemente, a medo,
Sendo em geral, um crime tão nefasto
Que se confessa assim como um segredo...
Mas Laura, que cismática e calada,
Ainda nada dissera, interpelada
Sobre o magno assunto transcendente,
Respondeu com um sorriso feiticeiro:
Para mim todo amor é o amor primeiro,
Porque o primeiro amor é o amor presente!
Juvenal Antunes
POESIAS ACREANAS - Dr. Juvenal Antunes - 1913
DEFESA
O amor que se agasalha em peito feminino
Tem o poder da fé e a força do destino.
Negar-se que a mulher seja terna e constante,
É cometer-se enorme injustiça flagrante.
As Francesca e as Beatriz, As Virgínia e as Julieta,
Não são simples ficções de cérebro de poeta.
Da mulher se conquista o firme coração
A golpes de carinho e de dedicação.
O amor atrai o amor, o desprezo desdém,
Como, de modo igual, o bem atrai o bem.
Saio em defesa, pois, da mulher indefesa,
Da mulher que é o primor de toda a Natureza!
Juvenal Antunes
Sena Madureira, 17– IX– 1913.
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