domingo, 28 de janeiro de 2018

POESIAS ACREANAS - Francis Mary - 2004

FILHA DA TERRA
Francis Mary
Eu nasci aqui,
No meio desse mato
Me criei.
Nadei no rio,
Bebi água dos igarapés...
Conheço todas as doenças
Dessa terra.
Conheço todos os ladrões,
Todos os exploradores
Conheço todos nós:
Filhos da miséria,
Irmãos da fome
E da esperança!

POESIAS ACREANAS - Francis Mary - 2004

ACREANO
Francis Mary
Abriu o peito prás balas
cantou mais uma canção
sem medo
sem ódio na alma
partiu e sumiu no rio
a bordo de um barco pesqueiro
no fundo era um seringueiro
que ia para o rio, pescar
chegou com a roupa molhada
chegou com os olhos brilhantes
e disse que no horizonte
alguém ia lhe esperar
correu descalço na praia
jogou sua vida na água
deixou o rio levar.

POESIAS ACREANAS - Océlio de Medeiros - 1971

CANTO DE NÚPCIAS
Océlio de Medeiros
Fui buscar nas constelações as mais lindas estrelas
para o meu manto de mago.
Fui buscar nas felpudas nuvens os macios chumaços
para fazer teu colchão.
Fui buscar no firmamento os retalhos mais azuis
para fazer teu lençol.
Fui ao fundo do mar buscar os mais suaves musgos
para o teu travesseiro.
Trouxe à superfície calma do oceano as ondas
para balançar teu sono.
Retirei da garganta dos uirapurus o canto
para eu te fazer dormir.
É da seda das brumas o teu véu de noiva, que eu
costurei com finos fio do luar desfeito.
Era da alva corola das orquídeas raras a tua grinalda
de pétalas que eu tirei sorrindo.
Por fim pedi à noite um pouco do seu escuro
para envolver a alcova de sutil penumbra.
Pedi ao tempo que parasse nesse instante
e o tempo parou,
parou,
parou,
até que amanheceu.
* * *
Eu sem meu manto de mago,
E tu despida de brumas,
Nós dois como crianças num colchão de nuvens,
num lençol de algas, nossas cabeças sonhando sobre
musgos.
E ambos despertamos para a vida!
Rio Branco, 1971

POESIAS ACREANAS - Océlio de Medeiros - 1974

O QUE RESTOU
Océlio de Medeiros
O nosso velho amor!... Que está restando agora
de mim, de ti? De mim, a bronzea enrijecida
apolínea figura que se foi na aurora
do teu ventre exraizada em nossa despedida?
O nosso velho amor!... Que está restando agora
de ti, de mim? De ti, a Vênus esculpida
em curvas de alabastro que eras tu outrora
e cuja carne é agora flor emurchecida?
O que restou de mim, de ti, – quando é sumida
a libido do corpo à arrefecente idade –
restou em ti e em mim, é o que restou da vida...
São cinzas, nada mais, do amor da mocidade,
e na nossa quaresma onde o passado é a ermida
o coração só tange os dobres da saudade...
Rio Branco, 1974

POESIAS ACREANAS - Claudemir Mesquita - 2008

O RIO...
Claudemir Mesquita
O rio é escultor
Memorável
Sua pureza flutua emoção
Em todo ser
Nasceu e se fez grande
Antes mesmo dos homens
Das aves e dos animais
Tão logo habitamos suas margens
Fomos acolhidos e amados
Mas por tola ganância
Teimamos em não respeitar
A obra de vossas mãos
Ecoou então um grito de dor
Quando a floresta o homem
Derrubou
O rio é frágil, finito e dependente
Da cultura e da sensibilidade
De cada homem