domingo, 15 de dezembro de 2013

AQUI - 10 -12 -1993 - Nazareno Lima



           AQUI  -  10/12/1993

                                 Nazareno Lima 

                 - I -

Tu és mais soberba do que foi Roma,
Ô terra natal dos oportunistas !
Enquanto abrigas vis capitalistas
És mais prostituta do que foi Sodoma !

Amante daqueles que dos pobres, toma:
Enquanto aplaudes os mais egoístas,
Despresas assim os grandes artistas
E ao violento à cada dia assoma !

Lembrai pois, dos imensos seringais
E Também dos gigantescos castanhais
Qua há muito tempo se fizeram lenha ...

E o Seringueiro tão humilde e forte:
Tu o chamaste para a própria morte
E por tudo isto tu jamais se empenha !
------------------x---------------------
Toca exploradora e explorada:
Esconrerijo de pobres gatunos,
Nos bons Palácios, os grandes tribunos
Protagonizam, discursando Nada !

Foi tu, ó carrasca vil, desvairada
( Cuja maldade me lembrou os hunos
E a rebeldia que tem os meus alunos
É a tua herança que a genética fada! )

Que na minha introspecção estatística
( É desconexa minha casuística
Que o pensamento não dialetiza ... )

Atraplhou-me para todo e sempre
Enfraquecendo-me precocemente
E me tirando a última camisa !!!

                 - II -
Herdeite pois, esta triste cinda:
Meu fraco corpo sob ti, habita
Mas, minha alma tristemente aflita
S'tá na floresta habitando ainda !

Este teu castigo, enquanto não abranda
E nem o meu nome a tua boca chama:
Meu magro corpo por justiças clama
E minh'alma triste entre vales anda!

Enquanto errada, contra mim se vingas:
Meu corpo frágil por tuas praças vaga
E minh'alma alva enquanto não se apaga
Vive nas matas à cortar seringas !

Enquanto trair-me-á por anos vindouros,
Meu corpo trilha por teus sujos becos
E minh'alma odiando estes matos secos,
Anda tristonha pelos varadouros !

Enquanto me exploras à cada vez mais,
Com tamanha mágoa, a qual me consome:
Meu pobre corpo vive à passar fome
E minh'alma vaga pelos tabocais !

Enquanto negares os direitos meus
Com estas tuas leis ultra-corrompidas:
Meu corpo anda à mendigar comidas
E minh'alma vive à se lembrar de Deus !
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sábado, 14 de dezembro de 2013

IV VISÂO - 2003 - Nazareno Lima


- II -
A Direita que brilhou,
Explorando explorados,
Projetando fracassados,
Comprazendo ilusões ...
Atirando seus bordões,
Para manter o poder,
Afirmava até morrer
Que aquele era o caminho!

Perseguia e repelia,
Proibia e expulsava,
Outra hora censurava
À quem dizia a verdade ...
Cerceando a Liberdade
Pregava falsa moral,
Crestava o ideal
De nova Democracia!

Com muita luta e sufoco,
A meia-esquerda chegou;
Mas tudo continuou,
Talvez até mais ainda ...
Quando então isso se finda?
 -  Perguntei a um Deputado.
Ele disse: "Está pautado:
Até Sartre apoiaria !"

A triste burocracia,
Teimou em continuar.
A técnica de explorar,
Sobrepôs o Impirismo ...
Um forte Paternalismo,
Tomou conta do País
E o Governo sempre quis
Condizer com o que havia!

20 anos se passaram,
Depois de tantos fracassos
Eu vi os primeiros passos
Do poder dos oprimidos ...
Foi esforços sem sentidos,
Foi pura ação demagógica
Pois, a crise ideológica
Atacou aos que pensaram!

Companheiros que lutaram
Viraram perseguidores ...
Já outros trabalhadores
Executam invasões ...
São várias as intenções;
Até pobre democrata,
Pensando ser burocrata
Faz greve pra não mudar!

Como pode melhorar
O caos que existe aqui?
Cada um luta por si
Com pura ação egoísta ...
O lado nacionalista,
Esqueceram que existe;
É raro que alguém conquiste
A melhora social !
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

ECOS AMAZÕNICOS - 1992 - Nazareno Lima





         ECOS  AMAZÔNICOS  -  1992
         ¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬
                                                Nazareno Lima

        

      Recado à minha Mãe – 07/11/90

Mãe, eu não me calei pôr revolta ...
Eu sinto vontade de falar ainda!
Espero uma energia de ti vinda,
Pra içar o eco que o meu peito solta!

Ó Mãe, sejais pois, minha escolta ...
Não me atribuas esta enorme cinda!
Não posso ser agora algo que se finda
Pois, ainda tenho algo a fazer de volta!!!

Mãe, eu sinto a doença me alquebrando;
Apesar de tanto ar, o ar está me faltando
E tu, diante disso não me socorre ...

Minha vida é tão útil a sua vida:
Minha missão ainda não foi cumprida ...
Não posso morrer tal um inimigo morre!!!
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            A   VOLTA   - 

Olá minha Mãe, olá! Não  morri pois, ainda me movo;
Sumi, depois de tantas desilusões e desenganos!
Depois de calado, observar tudo durante dois anos,
Estou aqui para escrever de novo!!!

Olá minha Mãe! Neste mau tempo eu vi muitos danos;
Vi o grande e triste massacre do chefe do teu povo,
Vi a derrota da classe trabalhadora que tal um ovo,
Foi comprada pelos capitais insanos!!!

Eu vi nestes dois anos o que não somou-se em vinte:
Teu povo precisa preparar-se para o tempo seguinte,
Para não enfrentar de vez, a morte ...

Eu resisti até os últimos momentos
Porém, não havendo a quem expor tantos lamentos:
Voltei a escrever para reclamar da sorte !!!
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

SOLILÓQUIO À MINHA MÃE - Nazareno Lima e Chico Mendes - 1982









                   - X -

Nada neste mundo me acalma o tédio
Ao ver minha terra transformada em frágua;
Meus olhos secos se enchem de água
E para a minha angústia não há remédio!

Torna-se cansativo lutar sem vencer ...
Onde todas as lutas tornam-se ilegais...
O protesto à chacina dos vegetais,
Poucos são os que querem fazer!

Mãe! Tua existência provocas atraso;
Tu és uma causa do subdesenvolvimento,
Essa é a filosofia deste confinamento,
Que para tua extinção já marcou prazo!

Na caminhada de teu fim não há pausa,
Tal quem corre para imensos precipícios,
Nem as oposições políticas nos comícios,
Hoje ousam defender esta triste causa!

Talvez da vida, nos seja esta, a sorte
Que os grandes, guardaram o segredo,
Nem Teotônio e depois Tancredo,
Pra não defender-te preferiram a morte!

A técnica da farsa que hoje sujeita
Ao velho ficar novo com a mesma filosofia.
Queria ser adepto desta covardia
Porém, minha consciência não aceita!

A etognosia tocando nossos sentidos,
Vemos homens comprando a Democracia
E até este governo de ginecocracia,
Nega os direitos dos pobres sofridos!

Esta democracia que das matas veio ...
Dizendo ajudar a quem nas matas vive:
Foi a maior decepção que eu tive
Pois, é antagônica ao nosso meio!

Andando nas praças... olho para os lados
E sem querer ver, vejo atravessadores,
Comprando votos de outros eleitores,
Como se fossem mercadorias nos mercados!

Tal muitos eleitores são os eleitos
Comprados pela predominante plutocracia,
Para administrar uma mórbida burocracia,
Que contra a nossa causa não faz efeitos!

Mãe, aqui mudou tudo nos últimos anos...
Tal quando chega-se ao fim de repente:
A Natureza também ficou diferente,
Após a chegada destes seres humanos!

Estes exóticos que lhe oprime
Apoiados pelo poder do capitalismo;
Levados pela ambição e um fanatismo,
São frutos da conjuntura do atual regime!

Das épocas boas: somente há saudades
E dia após dia, tudo se dificulta.
Tal a injustiça quando nos insulta,
Na direção lógica das infelicidades!

Estes seres famintos de tal ferocidade...
Ao vê-los aqui, de ódio, estamos tontos.
Não sabemos pois, até quais pontos,
Existem a vossa humanalidade!

Mãe, para medir o mal não há medidas
E as medidas do bem são muito rasas:
Pôr que eles ainda queimam as nossas casas,
Como se nossas terras fossem pôr nós invadidas!

Esta terra nossa, que nossa já foi,
Conquistada pelo pobre nordestino!
Hoje o vil desenvolvimento sulino,
Considera um homem inferior a um boi!

Mãe, se a morte fosse salvação ...
Salvaria teus filhos, que aos poucos morrem:
Hoje, no caminho em que os mesmos correm
Amanhã estes matadores correrão?

Apavora-nos a palavra exportação!
Sobrevive dela, a economia brasileira:
Estão acabando a floresta inteira
E do imposto pago não há arrecadação!

Defender-lhe, para nós é a Carta Régia!
Pôr vossa defesa, soltamos esse berro!
Tristes pôr não empatar esta mão-de-ferro
Responsável pôr toda esta estratégia!

Chego a desejar que a ignorância
Caia de uma vez sobre mim ...
Para não poder ver estas causas assim
Pois, no meu ego não há concordância!

Pela funesta força medonha,
Eles vem politicamente representar
O povo pobre que vieram a expulsar
Da terra que cada um ainda sonha!

O valor do homem é a consciência:
Infeliz daquele que não acompanha
A modernização com sua artimanha
Pois, nossa luta já é vasta ciência!!!

Fazendo uma lógica assimilação,
Nossa está um tanto organizada!
Para os inimigos porém, somos nada
Pois, vossas farsas ultrapassou nossa ação!

Mãe, os tempos mudaram a Natureza:
Ficou pior o meio ambiente!
A malícia imposta pôr esta gente
Levou teus filhos além da pobreza!

Já sentimos as causas de tua ferida
A qual influenciou a luz solar!
Não pensamos na força que tinha o Dólar,
Que pudesse acabar com tua vida!

Não entendemos de onde veio tanto mal
Nesta violência que temos de sobra.
Do raciocínio humano, tal manobra
Repercutida de forma internacional!

Uns empatam... Uns falam... outros escrevem
A fins de ver seus lugares defendidos:
Ah, se pudéssemos ir aos Estados Unidos,
Para falar da culpa que eles também devem!

Hoje, para que o estranhe não nos mande,
Raciocinamos à nossa maneira,
Assim tanto como Fernando Gabeira,
Quando vivia nas prisões da Ilha Grande!

Mãe! O egoísmo faz dificultar a vida:
Para viver, cada homem é um guerreiro!
Vivo na cidade tal um exilado estrangeiro,
Condenado a nunca voltar a sua terra invadida!
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sábado, 30 de novembro de 2013

PARABÉNS - 08-02-2004 - Nazareno Lima






PARABÉNS -  08/02/2004
                 Nazareno Lima 

              - I -
Parabéns, parabéns à você ...
Que suportou minhas tristes queixas,
Admirando estas pobres reixas ...
Imaginando como eu posso ser !

A sutileza de me compreender
É a meta para seguir minhas deixas ...
Tal o "Amigo Pedro" de Raul Seixas
É a superimpaciência de me ler !

Se Erasmo de Rotterdã me achasse louco,
Ainda teimaria em não fazer pouco,
Nessa situação de baixo muro ...

Mesmo quando a fraqueza me estafa,
Sou como o Gênio da garrafa,
Ninguém saberá o meu futuro !

                     - II -

A simplicidade é minha meta !
- Mestre, eu sou tal como falo.
Nasci como o PT, de um resvalo
Da opressão de tudo que se veta !

Se na vida, me trataram como zeta ...
Continuo a falar e não me calo !
Tal como um Astro, sigo o meu embalo,
Que é o meu único jeito de ser poeta !

Mestre - não soube viver de aparências
Mas, persegui demais as competências,
Para ultrapassar as perseguições ...

Sem querer ser como Midas,
Descobri que a mais nobre das vidas
É aceitar sem se calar, as opressões !

               - III -

- Mestre ! Desculpas pelo tratamento:
Não é sensatez de minha parte
Pois, se não fosse o leitor, a Arte
Morreria de vez no esquecimento !

A teoria do meu conhecimento
É lógica, nada há pois que afaste,
Apesar deste monstro contraste:
A Ignorância e o Desenvolvimento !

Um dos calos nestas minhas dores
É, criar mais para os meus admiradores
Apesar do grande atraso do Brasil ...

As vezes até esqueço os afrontos
Mas, desculpas também pelos "Desencontros"
Do dia 13 de Novembro de 2000 !

                 - IV -

Se falei contra o Capitalismo,
Improdutividade e Corrupção ...
Se ataquei demais a Exploração,
Foi por conta do meu idealismo !

Se critiquei enfim, o Entreguismo,
A Fome, a Miséria e a Repressão ...
Foi por conta da Grande Expulsão
Que o Acre sofreu do Colonialismo !

- Mestre ! Desculpas se não pude parar
Pois, do contrário outro iria trilhar
Este caminho penoso tal o anum ...

Perdoe-me as expressões demagógicas
E também pela "Crise Ideológica"
De 13 de Dezembro de 2001 !

              - V -
Desculpas por tudo isso ...
Por tudo quanto eu pensei
E pelo o que não falei ...
Mas inda sou submisso !

Talvez, quem sabe? Por isso
Que jamais acreditei
Nas estruturas e cismei
Hoje então peço permisso !

Lhe agradeço a atenção
Mas, esta minha expressão
Faz no Acre eu estar só ...

Se alguém me ignorar
Mande tentar me ajudar
Escrevendo algo melhor !
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sábado, 23 de novembro de 2013

MINHA FALTA - 18/06/2000 - Nazareno Lima


  MINHA FALTA   -   18/06/2000
                                                Nazareno Lima

⦁    I –
Eu tenho um tato, um olfato, um faro...
Que não entendo, de que lugar vem
Talvez de Deus, da Genética ou do além,
De ser um Ser de valor muito raro!

A minha sensibilidade eu comparo,
A de um espírito; o humano não tem
E quando tem não a usa para o bem,
Pôr isso pela vida, eu pago um preço caro!!!

Faz muito tempo que tive um aviso,
Que a minha morte será um prejuízo
A este mundo pobre e descuidado!...

Quando eu aqui, deixar de ter vivido;
Vasculharão meu lixo, escondido
Para estudarem o meu pobre passado!

⦁    II -                        

A resultante de tanto sofrer
E o antropomorfismo dos neuróticos,
Fizeram de mim um dos exóticos,
Com uma fome enorme de conhecer!

A psicologia dos psicóticos,
Faz-me sentir sem conhecer:
O que penso, não dá para escrever
Mesmo que fosse nos estilos góticos!

Para a humanidade seria um horror;
Se acaso um mega computador,
Captasse toda a minha arte infinda ...

E, sinto haurindo o universo imenso,
Que a Dialética Antagônica que penso,
Nenhum ser humano pensou ainda!
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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A ÚLTIMA REVOLUÇÃO DO ACRE - 2010

A ÚLTIMA REVOLUÇÃO DO ACRE - 2010




1. O Declínio da Produção da Borracha.

O declínio da produção da borracha no Acre teve início a partir de 1949, principalmente por conta do fim dos contratos econômicos internacionais relativos ao abastecimento da II Guerra Mundial.
Acontece que alguns desses contratos de abastecimentos teriam terminados no ano de 1945, outros teriam terminado em 1946, alguns em 1947, outros ainda em 1948, pouquíssimos terminaram em 1949. Em 1950 não havia mais contratos de abastecimento de borracha relativos à II Guerra Mundial.
Se alguém perguntasse: a II Guerra Mundial terminou em Agosto de 1945 e por que em 1949 ainda tinha contratos de abastecimento da Guerra?
Ora, a Guerra deixa muitos prejuízos e destruição, então esses contratos eram para repor a economia industrial abatida ao longo de seis anos de guerra. Os seringais de cultivo da Malásia e do Ceilão foram todos destruídos pelos japoneses e isso também foi uma grande perca não só para a Inglaterra, que era a financiadora destas áreas produtoras, mas também para os EUA, que era um dos maiores importadores desta matéria-prima.
Mas esse declínio da produção da borracha no Acre, não estava relacionado somente ao fato acima citado, ele implicava também na questão ambiental, pois o trabalho do corte das seringueiras matava muitas árvores e daí a produção geral diminuía, uma vez que a reposição natural era menor que a quantidade de árvores exterminadas com o trabalho.
Durante a década de 50 vieram os últimos “brabos” do Nordeste para trabalhar na produção do látex no Acre, e isso sem o auxílio do Governo.
Um outro fator que também enfraqueceu por demais a produção de borracha no Acre foi a agricultura de subsistência que o seringueiro começou a praticar a partir do início da década de 1950. Com essa atividade, ele perdia muito tempo principalmente na época da “broca” e “derruba” do roçado que era feita durante os meses de junho ou julho, época mais propícia para o corte das seringueiras. Nessa época, os patrões, que já não tinham o poder e o recurso dos coronéis, não proibiam ou não podiam proibir a atividade agrícola dos seringueiros do Acre, uma vez que estes não dispunham de mercadorias suficientemente para abastecer os seringueiros durante o ano todo. Diante disso, os patrões não podiam exigir que o seringueiro não plantasse o seu roçado.
Eis a escala de trabalho do seringueiro durante o ano:
Janeiro – O seringueiro não corta por causa das chuvas; alguns cortam até 10 ou 15 do mês para completar a produção, porém em raros casos. O corte durante este mês é muito prejudicial às seringueiras por causa do enorme ataque dos fungos, por conta da umidade dentro da floresta.
Fevereiro – O seringueiro não corta por causa das chuvas e alagações dentro da floresta, uma vez que neste mês, o solo da floresta já está encharcado e qualquer chuva transborda os igarapés, impedindo muitas vezes a passagem do seringueiro.
Março – O seringueiro começa a “roçar” as estradas ou “empicar” alguma estrada nova.
Abril – o seringueiro termina de “roçar” as estradas e “raspa” as mesmas. Quando as chuvas são mais prolongadas, eles “raspam” as estradas no início de Maio, já que não se pode “raspar” as estradas com chuvas, pois cria fungos e seca as seringueiras e pode matá-las imediatamente. Este foi um momento crucial da seringueira no Acre.
Maio – Início do corte. A produção é pouca porque as seringueiras ainda não estão “acostumadas”. Esse termo “acostumadas” é citado pelo seringueiro pelo fato de a árvore da seringueira ter um efeito biológico semelhante a um animal, o látex dela serve de defesa orgânica e quando ferida, acumula uma certa quantidade de látex em volta do ferimento para combater alguns fungos e ajudar na cicatrização daquele ferimento, aí então após 2 ou 3 dias, o seringueiro torna a cortar, e esta por sua vez acumula mais látex com o objetivo de cicatrizar os dois golpes, novamente depois de 2 ou 3 dias o seringueiro torna a cortar, e esta acumula mais látex para cicatrizar os 3 ferimentos, e assim por diante.
Junho – Com as estradas “acostumadas”, a produção de látex é bem maior, porém não se pode cortar as seringueiras com friagem forte, pois corre o risco de “secar” ou “escaldar” as seringueiras. Esse fator acontece por conta de o látex da seringueira coagular através do calor. Ocorre que, com uma temperatura alta, após 3 horas de escorrimento o látex coagula dentro do golpe aberto pela lâmina de aço de 3 mm e após a coagulação do látex que se transforma em cernambi este fecha a saída do látex, estancando o seu escorrimento. Quando a temperatura esta baixa, no caso da friagem, o látex não coagula e a seringueira fica a escorrer seu látex até por 12 horas seguidas. Assim a pobre árvore fica esgotada e naquele ano ela está com sua produção de látex comprometida.
Julho – Mês de maior produção de látex, já que as seringueiras caem as folhas e as friagens são mais fracas. Acontece que quando as seringueiras caem as folhas, grande parte de sua seiva acumula-se em seu tronco e suas raízes, pois é nesta parte de seu fuste, que acontece a fabricação da seiva. Ela precisa fabricar esse material, uma vez que precisa repor nova folhagem, e esta nova folhagem depende da quantidade de seiva que ela produzir enquanto estiver sem folhas.
Agosto – Começa a diminuir a produção do látex, pois a evaporação é muito forte assim como também o calor. Neste caso o látex que coagula pelo calor, uma hora após o corte, muitas das árvores cortadas já estão coagulando seu látex nos golpes e isto acontecendo, estanca rapidamente o escorrimento. No mês de agosto, dificilmente uma árvore de seringueira passa 3 horas escorrendo. Por outro lado muitas das árvores de seringueiras já estão nascendo as folhas e logo que as folhas começam a brotar elas entram em profunda queda de produção de látex. Uma vez que o látex armazenado em seu tronco e raízes transformar-se-á em folhas novas.
Setembro – Poucos seringueiros cortam, já que além de dar pouco látex, as seringueiras começam sua floração e as flores delas fazem coagular o látex no balde ou no saco do seringueiro.
Outubro – O seringueiro “raspa” novamente as estradas e volta ao corte, mas a produção é menor que aquela do mês de junho.
Novembro – O seringueiro corta naqueles dias que não chove. Há anos que faz uma estiagem maior, mas há anos em que o mês de novembro chove muito e isto faz com que o seringueiro largue cedo de cortar.
Dezembro – O seringueiro para de cortar principalmente após o dia 15. Há alguns deles que cortam até Janeiro e isto depende muito das chuvas e também da colocação em que ele está trabalhando, se esta estiver localizada em terra firme, uma vez que em região de várzea é impossível cortar em Janeiro.
Assim a agricultura de subsistência prejudicou a continuidade da produção da borracha, uma vez que em Junho tem que brocar o roçado, em julho tem que derrubar o mesmo e em Setembro e Outubro são os meses em que o seringueiro faz o plantio do roçado.
A agricultura de subsistência foi, antes de tudo, uma necessidade tanto econômica quanto biológica para o seringueiro, já que sua alimentação na floresta era uma das piores de todo o Brasil. A alimentação do seringueiro chegava a ser pior que a alimentação do próprio nordestino. Alguns geógrafos na Universidade Federal do Acre, durante a década de 1980, principalmente a Profª. Bertha Becker, diziam que um dos fatores do baixo desenvolvimento no aprendizado de muitos dos nossos alunos e muitas doenças de nossa população está ligado diretamente a este fator.
A alimentação básica do seringueiro acreano era: carne de caça cosida e temperada no leite de castanhas, isso na zona do rio Acre, Xapuri, partes do Yáco e Purus, lugares esses onde há as árvores de castanheiras; carne de caça torrada ou frita em banha de porco enlatada e feito farofa com farinha  branca ou farinha d’água, ambas de mandioca; vez ou outra o peixe pirarucu seco e feijão de praia, ambos cosidos e temperados com sal, pimenta do reino, alho e banha de porco enlatada, servidos sempre acompanhados da farinha branca ou farinha d’água.
No começo do período do corte da seringa ou fábrico, como eles chamavam, quando o estoque de mercadorias chegava ao barracão do patrão, havia charque, sardinhas e carne em conserva, ambas enlatadas. O leite comum era o do tipo condensado e somente era vendido se houvesse criança na colocação.
A grande maioria dos seringueiros não comia frutas nem verduras e tampouco leite. O arroz era também muito raro na alimentação dessa população silvestre e somente com a agricultura de subsistência, veio melhorar esse abastecimento.
A agricultura de subsistência, como fora dito antes, começou a desenvolver-se, entre muitos seringueiros um pouco antes do declínio da produção de borracha. A partir de 1950 em diante, foi se tornando mais forte e diversificada. No início da agricultura de subsistência, o seringueiro acreano sentiu muita dificuldade em adquirir sementes, ele plantava somente mandioca e milho, depois veio então o feijão de praia e o arroz do tipo 25, altamente duro de descascar. No final da década de 1950, os seringueiros do rio Acre e de seus afluentes já plantavam o feijão mulatinho, a cana de açúcar e criavam porcos. A indústria da farinha de mandioca era feita de forma rústica. Para moer a mandioca utilizavam uma espécie de ralo que eles mesmos faziam de latas de querosene vazia ou a roda de madeira puxada à mão. Outros evitando esse trabalho, uma vez que somente pode ser feito por 03 pessoas, ao mesmo tempo, duas girando a roda, esta, presa por uma peça de ferro sobre um mourão de madeira fincado sobre a terra na forma diagonal e uma cevando a mandioca, faziam a farinha d’água, a qual a mandioca é posta em um recipiente com água para amolecer.
Ao passo que passava o tempo os patrões iam fracassando economicamente e os seringueiros aumentando a sua produção agrícola e a partir de 1962, muitos seringueiros já tinham motores à gasolina para moer mandioca, já que o consumo da farinha d’água não era bem aceita entre os seringueiros.
A partir de 1964, muitos seringueiros já comercializavam certos produtos agrícolas, principalmente feijão, arroz e tabaco.  Com a crise econômica dos patrões, arrendatários e aviados de seringais, a presença do marreteiro ou regatão entra em cena e estes comerciantes ambulantes comercializavam muitos produtos dos seringueiros como borracha, castanha e animais domésticos (porcos, galinhas, gado e etc.).
Em 1965, muitos seringueiros criavam gado e animais de carga, além, é claro, porcos, galinhas, ovelhas e outros. A criação de animais era mais viável economicamente ao seringueiro, uma vez que os marreteiros e regatões tinham maior preferência.
O cronograma básico de trabalho de um seringueiro na agricultura de subsistência é a seguinte:
Junho – broca do roçado. (1hectare) é bom lembrar que a broca é o corte das árvores finas, arbustos cipós e tabocas, usando-se o terçado 128 enquanto que a derrubada é o corte das árvores grossas, estas por sua vez eram feitas com machados.
 Interessante é que o seringueiro costumava fazer o serviço da broca do roçado praticando o famoso “adjunto”. “Adjunto” era uma espécie de reunião, onde se reuniam de 5 a 12 ou mais seringueiros para executarem o serviço da broca do roçado. Era comum, um almoço reforçado à base de carne de porco, galinhas ou carne de caça. Alguns deles faziam uma festa, enquanto outros era somente o almoço. Havia outros que trocavam dias de serviços com vizinhos para executarem esse tipo de trabalho.
Julho – derrubada do roçado. Nesse trabalho, o seringueiro não costumava fazer o “adjunto” pelo fato de ser muito perigoso ocorrer acidentes no caso de muitas pessoas trabalhando juntas em derrubadas de árvores. Era comum a troca de diárias com os vizinhos ou outros seringueiros que moravam próximo. Em julho também era a época de colher o tabaco.
Agosto – época em que se espera o roçado "brocado" e derrubado secar para queimá-lo. Enquanto o seringueiro esperava o roçado secar, arrancava o feijão “mulatinho” ou “rosinha” e 15 dias depois batia o mesmo. Também havia colheita do tabaco.
Setembro – queima do roçado. Enquanto o seringueiro esperava chover para plantar o roçado novo, ia preparando os terrenos do roçado velho ( esse roçado velho era um termo que o seringueiro denominava o roçado que tinha sido do ano anterior) que tinham sido ocupados pelo feijão de “arranca”, feijão de praia e tabaco, para plantar mandioca e milho (consorciados).
Outubro / Novembro – planta do roçado novo: milho e arroz (50% consorciado e 50% somente milho); roçado velho: planta de mandioca e milho (consorciado) em todo o terreno: 1 hectare. É bom lembrar que o roçado do seringueiro era sempre 1 hectare em média.
Dezembro / Janeiro – limpar os roçados. Mandioca e milho consorciado (no roçado velho) e arroz e milho no roçado novo. (50% consorciado e 50% somente milho)
Fevereiro – colheita do arroz e do milho (consorciado). Planta do feijão de praia ou de cordas, em metade da  parte do roçado onde havia a plantação (somente) de milho.(1 tarefa = ¼ de hectare)
Março – limpa e preparação do terreno onde havia a plantação de arroz para a planta do feijão de “arranca” (mulatinho ou rosinha), “virar” o milho onde foi plantado o feijão de praia ou de cordas e preparação de um terreno para plantar fumo (1 tarefa =  ¼ de hectare). O tabaco era uma produção muito rendoza entre os seringueiros.
Abril – planta do feijão de “arranca” e planta do tabaco.
Maio – colheita do feijão de praia ou de cordas.
Com essa atividade numerosa o seringueiro quase não tinha como trabalhar no corte da seringueira e desenvolvia esse trabalho muito atarefado. Tinha uns que cortavam e a família ajudava na “colha” do látex, outros saíam para cortar de madrugada, com o objetivo de, pela tarde fazer alguma atividade no roçado. Outros mandavam a família ajudar no roçado, era um  sufoco, tinham crianças com  9, 10, 11 anos que trabalhavam no roçado e na “colha” do látex. Assim o seringueiro ia lutando para sobreviver sem patrão, independentemente na selva.