sábado, 27 de maio de 2017

POESIAS ACREANAS - Dr Juvenal Antunes - 1929

À LAURA!
Juvenal Antunes - 1929

Laura! Não digas mais que és desgraçada,
Porque, se és desgraçada a culpa é minha!
És tão pura como a madrugada,
Tão inocente como uma andorinha!

Hoje, se por alguém és reprovada,
Se alguma criatura te amesquinha,
Continua serena em tua estrada,
E ninguém neste mundo te amesquinha!

Como arrojado cavaleiro andante,
Percorrerei até todo o universo,
Montado num moderno rocinante!

E a quem não te adorar nem fizer verso
Darei rápida morte fulminante,
Se houver alguém na terra tão perverso!

sexta-feira, 26 de maio de 2017

POESIAS ACREANAS - Dr Juvenal Antunes - 1929

SONETO


Cumpro a promessa que lhe fiz... Vencendo
A indolência fatal que me consome,
Vou estes feios versos escrevendo,
Assim com cara de quem está com fome...

Porque não deixo, aqui, só o meu nome?
Nesta segunda quadra me metendo,
Antes que tinta novamente tome,
Com o diabo da preguiça estou me vendo!

Eis-me, enfim, no começo dos tercetos...
Se eu, um dia, encontrar esse malvado
Que inventou essa droga de sonetos,

Que D. Branca me consagre burro
Se eu não assassinar esse danado
Com uma facada, um ponta-pé, um murro!

        JUVENAL ANTUNES - Acre, 1929

quinta-feira, 25 de maio de 2017

POESIAS ACREANAS - Dr Juvenal Antunes - 1917

AOS 32 ANOS


Entre as do mundo fúteis criaturas,
Já vivi muito mais de onze mil dias;
E, contando alegrias e amarguras,
Tive mais amarguras, que alegrias.

Engolfei em cismares e poesias,
Cantei, como poeta, as coisas puras,
Sem saber, coração, que recolhias
Desilusões passadas e futuras.

Hoje, cético estou. Bem tarde embora,
Vejo só ter razão quem geme e chora,
E quanta ideia vã nos enfeitiça...

De orgulhos e vaidades me desprendo;
E, como um simples verme, vou vivendo
Na calma, na indolência, na preguiça!

             Juvenal Antunes - 1917

POESIAS ACREANAS - Dr Juvenal Antunes - 1922

LÓGICA

Se amar é ser escravo e não altivo,
Alienar a vontade e o movimento,
Ter em céus e infernos, como vivo;

Se amar é bem mal tão exaustivo,
Que embora, fecha, cega o entendimento,
Se amar é padecer tal sofrimento,
Sem um remédio, sem um lenitivo,

Se amar é ver fugirem calma e sono,
Não saber explicar o que a alma sente,
Ambicionar aquilo que ambiciono,

Ter sempre alguém no coração presente,
Sentindo solidão, vácuo, abandono,
Então já sei que te amo ardentemente!

             Juvenal Antunes - 1922

quarta-feira, 24 de maio de 2017

POESIAS ACREANAS - Juvenal Antunes - 1922

VULCÃO

Quem te conhece assim, simples, modesta,
De olhos baixos, discreta e recolhida,
Com esse Cândido porte, que te empresta
Um ar de melancolia compungida,

E ouve-te a voz tão sussurrante e mesta,
Como uma doce nota sustenida,
Fica a pensar que alguma dor te infesta,
Que alguma mágoa te consome a vida.

Toda a gente, entretanto, anda enganada;
És, entre as mil mulheres que eu conheço,
A mais ardente, a mais apaixonada...

Semelhas o vulcão, perfeitamente:
Por fora - pedra, argila, areia, gesso;
Por dentro - fogo, lava incandescente!

              Juvenal Antunes - 1922

¨POESIAS ACREANAS - Nazareno Lima - 2017


VI VISÃO - 2017
                                  Nazareno Lima
Giram em redemoinho os ventos fortes
Nos baixadões de areia, soterrados...
Onde passavam vapores carregados
Para suprir os povos seringueiros...
Nem Guarayos, Nordestinos ou Fazendeiros
Existirão nas terras dos Caucheiros,
Bolivianos, peruanos... Brasileiros
Sumiram tudo, enfim, pra nunca mais.
E reinará finalmente a grande Paz
Neste espaço de traições e muitas mortes!

Reinarão então sol e calor
E as "friagens", já há muito se alongaram...
Aqueles fungos também se exterminaram...
E as Lachesis deixaram de existir,
Assim se fez também ao Catuqui
E ao seu resistente protozoário,
O Anopheles também saiu do páreo,
Também assim se fez aos Triatomas
E outros poderosíssimos Genomas
Que causaram ao seringueiro tanta dor.
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segunda-feira, 22 de maio de 2017

POESIAS ACREANAS - Nazareno Lima - 2000


OS  MUDOS   -   10/04/2000
                           Nazareno Lima

Eu tenho tanto à falar ao mundo,
Pena que ele não me dê ouvidos:
Sou dos anônimos que vivem escondidos,
A sustentar este pesar profundo!

Quantos tal eu estarão perdidos?
Vítimas do vil anonimato infundo,
Semelhante a um pobre vagabundo,
Na alheia dependência dos sentidos!

Talvez pior do que foi Canudos:
É triste esta multidão do mudos,
E não há quem conte este acervo...

E muitos morrerão emudecidos ...
E eu para não ser um dos vencidos ...
Já que não falo, ao menos escrevo!

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* O poeta falava nesse texto do puro
 anonimato em que viveram os 
Seringueiros Acreanos, os quais nem 
a História vos conheceu direito. 
O poeta falava como um deles.